Friday, May 12, 2006

Drops 1

Fabricio observava sua esposa, Alicia. Queria ter certeza que ela havia adormecido. Seu coração batia aceleradamente. Não acreditava que ela demorasse tanto a pegar no sono. A ansiedade o consumia. Levantou-se sem barulho. Correu a passos mudos até a sala. Pegou seu celular e ligou. Respirou aliviado.

- Oi, sou eu, seu Pêzinho... Preciso te ver. Estou morrendo de saudades. Não quero saber se o seu namorado vai passar ai ou não, inventa uma desculpa. Estou indo. Recebi a notícia de que vou ser pai e quero comemorar com você, minha Bê... Beijos...

Suspirou. Havia prometido para Alicia que mudaria. Mas deliciava-se ao sentir o prazer do perigo, das mentiras deslavadas e da sua capacidade de atuar tão convicentemente. Tomou um banho pensando em Danielle, sua amante casual há 3 anos. Veterinária, balzaquiana, descasada e atualmente namorando um policial. Isso dava um tom de aventura muito maior a tudo. Pensava no que o atraía tanto. Suas ancas desproporcionais, o rosto redondo, os dentes salientes, amarelados pelo cigarro, a barriga protuberante. A pele já sem viço, o cabelo rebelde. Não entendia. Simplesmente, todas as vezes que tocava a esposa, pensava nela.

Voltou para o quarto, ternamente beijou a esposa, que acordou.

- Amor, aconteceu uma emergência, preciso resolver... você fica bem? Sabe que eu te amo né?

- Nossa, mas você vai sair a essa hora? - indagou, assustada.

- Vou. Eu preciso. E olha... já falei pra jamais desconfiar de mim... você não sabe que não importa onde eu esteja, é em você que eu penso? Que onde quer que eu esteja, é com você que quero estar? Que onde quer que eu esteja é tudo pra poder te dar uma vida de princesa? E ainda mais agora com o nosso bebezinho que virá... nem consigo acreditar... - a voz tremia, os olhos encheram-se de lágrimas.

Levantou-se e seguiu em direção à porta da rua.

Mal sabia que a doença que contrairia naquele dia seria a causa da morte do tão esperado filho.

Friday, April 28, 2006

Esses minutos que se arrastam
Me torturam
Quero ir embora
Sair sem rumo
Andar, andar, andar
Me perder na multidão
Diluir meus sentimentos
A tristeza sem fim
O sofrimento cinza
Deixar o passado
Onde deve ficar
Esquecer
Seguir
Desistir
Que os prédios me devorem
E a chuva me consuma
Que me levem daqui
Por pura misericórdia
Desta alma sem vida.

Wednesday, February 15, 2006

Julia

Diante daquela tela não sabia o que fazer. Não conseguia se conformar como podia ser assim. Ele dizia se importar, mas jamais lera o que ela escrevia na internet. O pior era lembrar que ele sempre escrevia nos blogs dos antigos casos, até hoje, se bobeasse. Elogiava as poesias, dava conselhos, dizia como queria estar com elas, como queria voar com elas até o infinito. Tinha dias em que escrevia duas, três vezes para elas, em diálogos escancarados para quem quisesse ler. Sem pudor nenhum, sem medo de mostrar o que pensava, na hora que queria. Interpretava tudo com uma sensibilidade espantadora, com códigos românticos, palavras de desejo. Sentia-se tão menos importante com isso tudo. A raiva a consumia, gota a gota de sangue, trazendo o gosto de fel à sua boca.

Enquanto pensava no que faria da sua vida, escorregou o mouse pela sua página de escritos, deixando com que clicasse nos comentários. Já era a terceira ou quarta vez que o fazia. Não que tivesse esperanças, mas apenas o fazia, compulsivamente então. E como por mágica, alguém surgiu, elogiando o que escrevera, vendo sentido naquelas palavras tão soltas, tão necessitadas de um cuidado, sedentas, sangrando.

Por curiosidade começou a pesquisar sobre essa pessoa, que não conhecia, concluíra. Escrevia também. Cores fortes. Palavras nebulosas. Às vezes escuras. Faltava métrica e sobrava inspiração. Algumas coisas a estimulavam e traziam uma alegria sem fim. Outras a faziam sentir frio. Mas tudo ali trazia alguma sensação jamais pensada.

E o desconhecido, todos os dias, invadia sua vida com seus comentários tão vivos, que a fazia ter vontade de escrever mais, obsessivamente. Passou a perceber que nos textos dele ela aparecia de alguma maneira. Às vezes, em um lampejo, se via em poesia. Às vezes em prosa. Às vezes em um conto. O autor resolvia nele encontrar alguém por quem havia se apaixonado literariamente.

Meses se passaram. E a pessoa que nunca lia seus escritos sequer notou o quanto ela havia mudado. Uma pena, pensou. Afinal, alguém apaixonara-se pela sua essência. Isso bastava. Sem toque, sem ver, sem ter. Cansara do seu compromisso sem compromisso, das promessas feitas e jamais cumpridas, da falta de tato, falta de afeto, atenção, sensibilidade. Queria a nova vida. Ainda que fosse só por textos. Sentia-se completa, então.

Tuesday, January 24, 2006

Ficção?

Ando rápido. Cada passo, uma palavra. Corro. Pensamentos que me estrangulam. Mergulho em mim e simplesmente não sei onde fui parar. Atravesso distraída. O carro freia bruscamente. Pena, penso. Tenho medo do inferno, divago. Antes tivesse o carro acabado com essa tortura. Ainda falariam bem de mim. Lembrariam de coisas boa que fiz, se é que as fiz. Chorariam como se fossem meus amigos de verdade. Inventariam histórias. Lindas. Míticas. Mas aqui continuo. Andando. Sem sentido. Sem cor. Nem o príncipe encantado eu espero mais. Ele só entraria na minha vida, prometeria cores e me daria um mundo desbotado. Talvez borrado de vermelho. Sempre é assim. Promessas. Palavras. Gestos. E tudo não passa de um ritual de ilusionismo. Destroçada. Contradições sem respostas. Luto de uma pessoa viva. Dor intermitente. Lágriams. Chuva. Será que um dia voltarei a ser eu?

Tuesday, January 03, 2006

Rain
Tears
Drain
Fears
Dry
Phony
Happiness
Lonely
Sadness
poor
Blood
Pour
Flood
Sour
rhyme
Mistake
Shame
I take
The blame
cry
Could
die

Monday, January 02, 2006

Entrou em casa, jogou as chaves na mesa. Era um dia como outro qualquer, casa cheia: irmãos, pai, mãe, cachorro. Olhos vermelhos de angústia. Entrou no quarto sem conseguir conter os soluços. Imaginou que tomar um banho fosse bom, deixar a tristeza ir pelo ralo, mas ao contrário, a sensação da água acariciando seu corpo a fazia pensar que talvez fosse aquele o único afago que receberia naquele dia. O mundo parecia cair em formas de estacas sobre sua cabeça. Um arrepio percorreu seus braços, subindo até o pescoço. Andou pela casa, ainda chorando. Abriu a porta. Encarou a calçada. As ruas lotadas, ela chorava. Dor. Ninguém percebia.

Tuesday, December 13, 2005

Hit the floor

Se o ódio fosse veneno, a essa hora, estaria morta. Odeio com todas as letras maiúsculas. Ódio como ressaca do mar, que leva o que estiver pela frente. Ódio cinza. Vermelho. Sangue. Azul-raivoso. Verde-morte. Preto-vingança.

Pudera eu expressar meu ódio. Despejar em você todo o colorido negro da minha alma. Vomitaria palavras. Enauseante é a sua falsidade. As suas mentiras.

Cansei. Das suas futilidades. Ainda que usasse a força física para tirar-lhe a vida, ainda assim não sentiria que a vingança foi feita. Não quero que termine. Não o seu sofrimento. Quero dias roxos para você. Dias de amargor. Dor. Noites eternas de arrependimento.

Chega. Não perderei mais tempo, precioso tempo, pensando em você.

Monday, October 31, 2005

Contentamento descontente

Aqui estou eu. O mundo aos meus pés e a cidade ao alcance dos meus olhos. Contemplo minhas vitórias. Mas sinto uma coisa estranha. Uma dor esquisita. De saudade de algo que eu nem sei o que é. Dor de bala Soft encalhada no peito. De soco de irmão no meio da farra. Queria saber o que tenho. Eu e meu mundo desentendido. Sozinha mesmo quando cercada de gente. Sabe, fiquei aqui pensando. Contabilizando minha vida. E acho que queria mesmo era saber se sou capaz de gostar de alguém por mais que alguns meses. Talvez dias. Contados. Nos dedos? Das mãos, claro.

Já desisti de dizer 'eu te amo'. Soam como 'saúde' ao vir alguém espirrar. Apelidos então passei a repetí-los. Escassez de imaginação? Excesso de apelidados? Não sei ao certo. Aonde foram parar aqueles sonhos da adolescência? De encontrar o príncipe encantado? Já nem me emociono mais quando passo na rua das lojas das noivas. Nem imagino um casamento na beira da praia, ou meus pais emocionados acenando com o lenço branco. Será que esgotei meu estoque de ilusões?

Não lembro nem o que é querer ter um grande amor. Ah, grande amor... Acho que esse aí deve ter se perdido pelos cantos escuros da minha fértil imaginação e por lá ficou, nunca mais quis voltar. Sei lá, arranjou um lugar para pendurar sua rede, na beira de alguma praia paradisíaca com a qual já sonhei um dia.

Tenho vários grandes amores. Diria descartáveis se não fosse apedrejada. Fogo de palha, diria minha avó. Amores breves. Melhor assim. O problema é que nem sempre eles entendem que o amor acaba do dia para a noite, às vezes. No caso, sempre. Então vejo corações quebrados aqui e ali.

O amor, o amor. Sei lá que raios é isso. Amor é tão genérico. Dizem que se ama cada pessoa de um jeito diferente. A gente com essa mania de achar que tudo é amor. A primeira paixão platônica, o primeiro namorado... Até a paçoca, imginem, virou amor...

A Bíblia fala que amor não acaba. Então acho que nunca amei. Assim... Amei pai, mãe, tio, cachorro. Um papagaio também uma vez. Até fiquei bem triste quando ele morreu. Mas amor de ter certeza de que vai durar pra sempre - e a certeza estar certa, isso eu não tive não. Quer dizer, tive a certeza. Mas ela sempre esteve errada.

Não, não estou triste ou lamentando. Ainda acho que no fundo eu acredito que talvez um dia alguém mude tudo isso. Talvez apenas para imaginar que tudo pode ficar mais interessante. Diferente do que é agora. O desconhecido sempre nos atrai. E eu. Continuo o meu monólogo sobre coisas que nem sei ao certo. Só estou aos pés da metrópole, me desaguando em contradições.

Tuesday, October 18, 2005

Ah. Sei lá.
Me perdi nessa história
Me entreguei a esse segredo
Me derramei em pedaços
Ao chão

Já perdi os pés
Os pés pisantes
Piso de mármore
Não o tenho mais

Me deixo cair
Daqui não saio
Venha chuva
Tempestade

Que me deixem afogar

Monday, October 03, 2005

Edu

Não, a idade não lhe pesava sobre as costas como devesse, talvez. Não que achasse estar velho, mas vendo seus amigos tão seriamente comprometidos, alguns com filhos, outros até descasados já, fazia com que refletisse se não haveria alguma coisa errada. A vida de solteiro lhe era tão generosa, mal lembrava a última vez que ouvira falar de ciúmes, por exemplo. Ele que outrora fora tão possessivo, hoje olhava para trás e via o quão infantil havia sido. Era o ápice da sua maturidade sentimental, pensava.

Suas dúvidas quanto ao seu futuro escondia debaixo da espuma do banho, hora em que ali, sozinho, permitia-se a sinceridade crua. Apesar de se sentir tão bem, será que um dia encontraria alguém capaz de fazer-lhe largar tudo, toda aquela liberdade e independência? Saberia o que é querer estar ao lado de alguém para sempre? Será que ficaria privado para sempre dessas coisas? Não, não era desespero. Era apenas, um talvez, quem sabe, medo, não assumido, obviamente, de ter morrido para certos sentimentos. Morrido por dentro.

Nessas horas, sempre nelas, vinha a lembrança daquela mulher. Aquela menina. Tinha muitas recordações da sua vida de 'mais bonito da turma', muitos rostos, muitas bocas, corpos, perfumes. Mas aquela... ah, aquela menina. Como esquecer aqueles segundos em que a viu, correndo em sua direção, fugindo da chuva... o instante em que esbarrou em seu corpo e pode quase sentir seu coração batendo? Como esquecer o olhar que o fez sentir nu em plena avenida? Os cabelos molhados, escorridos; a maquiagem borrada dos olhos profundos, a boca pálida, ofegante? As mãos.. ah, aquelas mãos imperfeitas, que tentavam se esconder por dentro da manga de um casaco qualquer. Mal pode acenar um 'desculpe'. Ou então correr para dizer que naquele encontro havia ela deixado um livro caído no chão.

Até hoje seu estômago parecia congelar todas as vezes que lembrava do momento em que abriu aquele livro. Talvez ali estivesse o começo de uma história digna de filmes hollywoodianos... As gotas de água foram cruéis o suficiente para borrar a dedicatória. Lia-se apenas um nome. Ou melhor, um apelido: "Má". Maria? Marina? Como seria seu nome? E se o livro fosse de outra pessoa? Não, não podia ser. A cada página virada, um soco no estômago. Uma ansiedade que nem lembrava mais ser capaz de sentir. Nenhum papel, nenhum nome. Apenas algumas frases grifadas. Duas citações sobre o ciúmes e uma sobre o amor. Um papel de bala e um panfleto desses ordinários que prometem vida e dinheiro do outro lado do mundo.

Era um livro de autor nobre, capa vagabunda, e poucas páginas. História de um ancião que se apaixonava por uma prostituta ninfeta e virgem. Estranho, falando assim. Uma história bonita até. Porém... Não. Não queria terminar sozinho como aquele homem do livro. Não queria descobrir o amor aos 90 anos. Mas também não sabia o que fazer para evitar.